BANDIDA CONTRA O MACHISMO

Lá na escola, discutindo um texto da Lola (escreva Lola, esse aqui, especificamente) com meus alunos, surgiu uma intensa discussão. Ao citar as personagens Janete e Valéria do Zorra Total, todos se animaram. Talita Carauta e Rodrigo Sant’anna são artistas muito talentosos, concordamos, e todo mundo adora repetir os bordões de suas personagens. Mas existem alguns problemas no quadro Metrô Zorra Brasil que, devido ao alto teor ideológico embutido ali, podem passar desapercebidos.
Na efervescência da discussão, percebemos que o assédio sexual sofrido por Janete (com a conivência de sua “amiga” Valéria) tem implicações muito profundas na realidade. As mulheres que andam em coletivo sabem. Os redatores do humorístico da Globo, não. Alguns meninos da sala onde a gente discutia isso, também não.
É importante saber que, embora assumamos que as meninas sejam as maiores vítimas do machismo, os homens também sofrem com ele. O machismo é um mal para a humanidade, não para as mulheres tão somente. Desde muito pequenos os homens são obrigados a dar pinta de machão, não deixar o cano cair e nunca chorar. Se tirar a sobrancelha, então, é veado. São treinados pelos seus pares (em geral, ensaia-se dentro de casa, mesmo) a chamar aquela mulher que passa de gostosa. “Ô, lá em casa”, já ouvimos por aí. E quando repetem esse tipo de atitude, são aplaudidos. Aprendem que existem mulheres para transar e outras para casar. E são incentivados a pegar todas, para mostrar ao mundo sua potência de macho (a gente que é gay sofre muito com isso, né? Eu nunca conseguia pegar uma pra agradar meu pai). Se não aguenta carregar aquele objeto pesado, VIXE. Se não faz gol, VIXE. Se não arruma trabalho logo cedo, VIXE. Se brocha na hora H, VIXE.
É certo, então, que os meninos têm (acho que não existe mais esse acento, né? ‘tou nem aí) que ser reeducados. Aliás, todos os seres humanos precisamos ser reeducados para uma cultura não machista, não racista e não homofóbica. A idéia é forte.
Mesmo com tudo isso, o que vou contar agora não pode ser aceitável nem justificável, mas combatido a todo instante (mesmo porque a educação também se faz por meio do combate). Vamos ao rap (nomes fictícios):
Sebastião disse que, apesar de existirem muitos homens safados, também existe muita mulher sem vergonha por aí. Soraia concordou com Sebastião e disse: “sim, existem mulheres sem vergonha e qual é o problema? Se os homens podem, por que não podemos?”. Sabrina concordou com Soraia: “Se eu quero dar, eu posso dar“. “Com camisinha”, completei. E todos riram. Sabrina continuou: “mesmo sendo a mais puta da escola, se eu tiver dado pra todo mundo, ainda assim terei que ser respeitada”. Aplaudida pelas meninas, Soraia foi interrompida por Sérgio que gritou: “se você der pra mim, não vou te chamar de puta“, vaiado por todas as meninas em seguida. Sérgio, então, levantou-se da cadeira, aproximou-se de Silvio (que estava sentado) e friccionou seu órgão genital no ombro desse dizendo que quando fazia isso dentro do ônibus as meninas gostavam. Digo que foi muito difícil controlar a fúria das meninas nessa hora. Devido ao imenso desrespeito com as meninas e com seu colega Silvio, Sérgio foi convidado a se retirar da sala. Encaminhei-o à direção, que resolveu chamar a mãe. Como esse parágrafo já está longo, vou fazer uma quebra de linha. Pule pra próxima.
A mãe de Sérgio chegou e sentamos todos juntos, com a presença da diretora, para conversar sobre o ocorrido. Dona Sara disse não entender porque o filho, tão bonzinho, tinha sido tirado de dentro da sala de aula. Então pedi pra que Sérgio contasse à mãe o que havia feito. Contou da sua maneira. Contei da minha. Dona Sara passou a mão na cabeça do filhinho e disse que as meninas se fazem de santas, mesmo. Dentro da escola, segundo ela, não era pra fazer aquilo, porque poderia parecer desrespeito. Ele só poderia fazer aquilo fora da escola. E as meninas iriam adorar.

Tive vontade de perguntar à dona Sara se ela gostaria de ter um pinto esfregado na cara enquanto andasse de ônibus, mas engoli seco. A diretora, melhor autoridade do momento (não por ser diretora, mas por ser mulher) foi quem disse à dona Sara que seu filho deveria respeitar as pessoas em todos os lugares onde estava e que era dever dela (mãe dele) e da escola ajudá-lo a entender isso. Dona Sara concordou, mas disse: “vocês têm que entender que ele é um adolescente, está descobrindo o corpo e aprendendo a ser homem”.

Não, dona Sara, não. Seu filho está aprendendo a ser macho, não a ser homem. Sérgio ficou suspenso por causa do ocorrido e isso não vai resolver seu problema. Nem o problema do machismo. Ele vai ouvir os ensinamentos da mãe, vai assistir às novelas, ao Zorra Total, vai seguir o exemplo dos machos que estão ao seu redor e vai continuar achando que está certo (Sérgio ficou muito chateado por ter sido suspenso, sem conseguir entender que o que fez foi muito errado. Foi embora culpando a diretora por não conseguir compreendê-lo).

Marcha das Vadias - Campinas-SP
Sabemos que para que o machismo tenha fim, será necessária a destruição daquilo que o sustenta: o capitalismo. No entanto, não podemos deixar de combatê-lo desde já. O que fizemos (a diretora e eu) com Sérgio, foi para que pelo menos pudesse refletir um pouco sobre o acontecido. Sabemos que Sérgio não é o culpado pelo machismo, muito menos dona Sara, mas entendemos que ele precisa saber que o que fez na sala de aula ontem era reprodução dessa ideologia de violência que mata muita gente por aí. Somente aqui em Campinas, uma mulher é estuprada a cada 13h. E o delegado lá de Barão Geraldo disse que não há muito o que fazer, afinal os dados estão dentro da média. Temos que combater isso! As mulheres precisam estar vivas e com saúde para construir uma nova sociedade em que elas sejam respeitadas e ninguém mais sofra qualquer tipo de opressão.
No Brasil foi eleita a primeira mulher presidente da República. Nem toda brasileira é bunda. Mas a eleição de uma mulher não vai acabar com o machismo. Porque não basta ser mulher, tem que ser mulher feminista! Antes de assumir a presidência, Dilma assinou uma cartinha em que se comprometia a não realizar nenhuma política que ferisse à moral da família burguesa. Nada de aborto, nada de casamento gay. O fato de Dilma ser mulher não faz dela porta voz das mulheres, assim como Obama não é porta voz dos negros (não, gente, ainda não acabou o machismo nos Estados Unidos, pode crer).

Manifestante da Marcha das Vadias em Campinas
Lá na ONU Dilma fez um discurso todo lindo, falou que representa as “mulheres anônimas, aquelas que passam fome e não podem dar de comer aos seus filhos”. AHAM, CLÁUDIA. Ela deve ter esquecido que a política econômica de seu governo atinge fortemente as mulheres – que recebem os menores salários, são mais prejudicadas pelo desemprego, a miséria, déficit habitacional, entre outras mazelas sociais que infestam o país (roubei esse pedaço daqui). Enquanto mulher e com o poder que tem, Dilma deveria lutar contra a violência. Dilma deveria se empenhar em criar políticas públicas que protegessem as mulheres, valorizassem o seu trabalho e lhe colocassem par a par com os homens na questão de direitos. Creches, restaurantes públicos, lavanderias públicas são necessários para que a mulher se emancipe verdadeiramente. Nenhuma mulher tem que ficar submetida às tarefas domésticas. Mesmo as que trabalham para empresas, quando chegam em casa têm pilhas e pilhas de louça, montanhas de roupas para lavar e passar e filhos para cuidar (como se fossem as únicas responsáveis).
Sábado passado (24/Setembro/2011) aconteceu a Marcha das Vadias em Campinas. As meninas se reuniram para gritar contra o machismo, mostrando que são fortes, protagonistas de sua história e que precisam estar vivas e serem respeitadas para continuar na luta. Na quinta feira passada (22/Setembro/2011), os metroviários se manifestaram contra a onda de assédio dentro do coletivo e denunciaram o quadro de Janete e Valéria na televisão (veja aqui o panfleto). Tudo isso mostra que, mesmo com a tentativa de alguns setores governistas tentarem barrar, a luta está nas ruas. A luta está nas veias de quem sofre a opressão. Mulheres e homens, juntos, somos responsáveis por construir uma nova realidade. Só a luta muda a vida. E a vida só muda com a emancipação do ser humano. Contra toda forma de exploração. Contra o racismo, contra o machismo, contra a homofobia, ai como eu ‘tou bandida, hoje!
Mexeu com uma, mexeu com todas!

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