THAUMADZEIN

O ENSEBADO

Posted in diário by carlinhos on 14/03/2010

Dias atrás um colega foi capaz de dizer na sala dos professores: “aquele sujinho da oitava série, ensebado, não serve nem pra fazer sabão. Quando o dono da fábrica de sabão vier à escola pedir matéria prima teremos que dizer: ‘não, o nosso estoque está vencido'”. Foi um professor quem proferiu essas palavras. Tão chocante quanto a atitude do homem que disse isso foi a dos professores e da diretora que ouviram e concordaram com ele por meio de risadinhas e acenos com a cabeça.

Esse tipo de observação, feita pelo professor, infelizmente não é algo incomum nas escolas que conheço. Muitas vezes parte da insatisfação que os profissionais sentem diante da falta de condições que têm para trabalhar. Outras vezes parte da indisposição em realizar um esforço para entender melhor a realidade que é apresentada. A expectativa dos docentes não é compatível com aquilo que se encontra em sala de aula: os mais velhos não se conformam com o fato de crianças e adolescentes de hoje terem mudado tanto o seu comportamento em comparação aos alunos que tiveram há uma ou duas décadas; os mais novos não receberam da universidade os instrumentos necessários para assumir o seu papel na educação como ela se configura hoje. O encanto provocado pelo estudo das teorias é quebrado logo no primeiro dia de aula, quando o professor entra na sala e se vê acuado diante de uma multidão de existências que grita (metafórica ou literalmente).

O “ensebado”, aquele menino do fundo da sala que sabe marcar a sua presença além de simplesmente dizer “aqui” no momento da chamada, é quase sempre tido como o vilão do professor. A criança ou adolescente que se mostra visível, aparente, que se esforça por se destacar entre os colegas utilizando, para isso, as ferramentas que tem, é visto pelo professor como um obstáculo para a realização de seu trabalho. O profissional espera que seus alunos estejam todos sentados em fileiras e em silêncio, como no sonho que teve antes de ser acordado pela violência dos fatos. Quando não consegue isso, ele se descontrola ou, simplesmente, desiste. Quando se descontrola, grita, xinga, tenta falar no mesmo volume de voz que seu aluno. Quando desiste, é tomado por um distanciamento (não filosófico, daquele que se faz para conhecer a realidade, mas depressivo, daquele que acontece por não haver mais vínculo) e torna-se indiferente quanto à evolução ou não da aprendizagem daquele sujeito, além de sentir-se incompetente e vencido.

Se não há vínculo, não há processo educativo (de nenhuma das partes). Primeiro porque o professor não se abre para apreender o conteúdo da realidade que lhe circunda. Segundo porque o educando, sem uma referência positiva, também acaba enxergando no professor a figura de vilão. O docente se transforma numa aberração que vem de fora para impor regras que o aluno não conhece nem no ambiente familiar e idéias que não parecem conectadas àquilo que ele vive no seu dia-a-dia. Dessa forma, a presença do professor é a presença de um estranho, de alguém que veio para impedir um momento de diversão. Quando um professor falta e o aluno descobre que vai embora mais cedo da escola, há comemoração. Quando o professor chega na sala para passar ao aluno aquele conteúdo que foi preparado com antecedência e não consegue, parece enfrentar uma batalha (que quase sempre é vencida pelos alunos, já que são em maior número). É assim que o indivíduo acaba na sala dos professores dizendo que o menino é um ensebado que não serve nem para fazer sabão e termina por defender punições e a criação de regras mais firmes com conseqüências mais violentas.

Com isso, no entanto, não se justifica a atitude do professor desiludido, nem a negligência do Estado no que diz respeito à educação das crianças. O Artigo 6º do Estatuto da Criança e do Adolescente diz que a interpretação dessa lei deve levar em conta a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento. Isso exige do profissional da educação um esforço maior para procurar entender as circunstâncias a que estão submetidos as crianças e os adolescentes. Em especial, é importante ao professor observar quando o aluno está impossibilitado de exercer seus direitos e deveres porque já teve vínculos essenciais quebrados – e deve denunciar isso. A sociedade, da maneira como está organizada hoje, muitas vezes impede o indivíduo de vivenciar um de seus principais direitos: a convivência comunitária. Quando vínculos são quebrados é o Estado responsável por aplicar as medidas necessárias para devolver ao indivíduo o seu direito de convivência comunitária. Sabe-se, no entanto, que políticas públicas são escassas e ineficientes, muitas vezes ligadas à punição (abrigos e internação ainda não se configuram como instituições educativas como prevê o ECA).

Em seu Marco Legal, o Plano Nacional de Convivência Familiar e Comunitária diz:

As crianças e os adolescentes têm direitos subjetivos à liberdade, à dignidade, à integridade física, psíquica e moral, à educação, à saúde, à proteção no trabalho, à assistência social, à cultura, ao lazer, ao desporto, à habitação, a um meio ambiente de qualidade e outros direitos individuais indisponíveis, sociais, difusos e coletivos. E conseqüentemente se postam, como credores desses direitos, diante do Estado e da sociedade, devedores que devem garantir esses direitos. Não apenas como atendimento de necessidades, desejos e interesses, mas como Direitos Humanos indivisíveis, como os qualifica a normativa internacional – como direito a um desenvolvimento humano, econômico e social. São pessoas que precisam de adultos, de grupos e instituições, responsáveis pela promoção e defesa da sua participação, proteção, desenvolvimento, sobrevivência e, em especial, por seu cuidado.

Cabe ao Estado um papel fundamental na educação de crianças e adolescentes. A formação de professores deveria ser prioridade e a valorização do trabalho desse profissional é pressuposto para uma educação de qualidade. O que não isenta o professor de suas responsabilidades na sala de aula e fora dela: o esforço para mudar as estruturas que sustentam essa rede de hipocrisia criada pelas leis maravilhosas que não tem correspondência na realidade é papel do profissional. Se não é o professor – aliado dos alunos – quem luta por transformações na educação, quem o fará? Se não são os trabalhadores a procurar defender-se da exploração, quem o fará? Não podemos culpar o professor pelos problemas da educação e isentar o Estado de suas responsabilidades. Mas também não podemos descontar as angústias nas crianças e adolescentes que se encontram na escola ansiosos por conhecimento e pela possibilidade da convivência comunitária. O “ensebado” mostra a sua insatisfação com aquele espaço em que ele já não cabe mais. Podemos aprender com ele que a escola não é nada mais que uma casa de transmissão de ideologias e controle. E devemos direcionar a revolta dele e a nossa contra os verdadeiros inimigos. Caso não consigamos cumprir com nosso papel transformador, melhor ir trabalhar numa fábrica de sabão.

Bibliografia On Line:

http://www.planalto.gov.br/ccivil/LEIS/L8069.htm

http://www.mp.rs.gov.br/areas/infancia/arquivos/planonacional.pdf

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